15:44. sábado, 15 de fevereiro de 2014
GOT LOST AT THE JFK... 4EVER

Querido diário,

não era assim que eu costumava te chamar? Eu comecei aqui te chamando de amigo e acabou que eu me saí como uma péssima amiga. Deixa eu te atualizar: tenho 17 anos agora na carteira de identidade. Vai saber quantos anos em experiência, hein. Relendo meus antigos posts, parece que estou lendo o diário virtual de uma filha minha ou de uma personagem que criei. É porque a menina que escreveu aquilo não sou eu. Nem a pessoa que eu era ontem é mais eu. Estamos constantemente mudando.

Porque já estou no terceiro ano do ensino médio, você deve imaginar que estou abarrotada de estudos. Verdade... Mas quem disse que eu estudo? Não no meio de uma crise existencial. Como eu disse, sou bem mais velha do que aparento. Essa semana estava chorando porque não queria mais ir a escola, porque me sentia velha de mais para isso (risos). Pesquisei até se podia me emancipar para fazer supletivo. É que muito aconteceu nesses meses, deixa eu tentar resumir: meu pai pegou minha mãe traindo ele com um aluno de faculdade dela (só um ano e pouco mais velho que eu... clássico), então ele surtou e decidiu desabafar comigo, mas eu não podia contar nada para ninguém, aí ele decidiu tomar satisfações com ela e passaram o início de janeiro brigando. Eu e a minha mãe viajamos para NYC porque a viagem já estava comprada faz tempo, e lá eu não aguentei e contei que sabia de tudo. Brigamos e choramos no meio da Times Square. Depois disso, em algum lugar entre a rua 42 e a 105, eu a perdoei - eu acho. Voltamos, mas meu pai não pareceu gostar que eu estava bem mais íntima com a minha mãe (vai saber porque!), então brigamos feio, ele até me empurrou (sei lá por que também). No dia seguinte, arrumou as malas e foi embora. Ligou dois dias depois contanto onde estava e se eu não queria sair. Eu sai da minha antiga escola com todos os meus amigos e fui pra outra, porque seria mais barata, mais perto e me consumiria menos tempo, só que me pergunto o tempo todo se fiz a coisa certa.

Ok, dito isto, vamos esquecer que dos meus problemas que já estou farta. Só escrevi aqui porque tenho a esperança de que daqui há alguns anos eu vou ler tudo isso e senti pena de mim mesma, enquanto minha futura eu agradece a Deus o quanto é feliz e bem-sucedida. Dá pra isso acontecer? Dá? Dedinhos cruzados.

Acho que posso dizer que até agora, 15 de fevereiro, tudo de mais legal que aconteceu comigo foi quando eu não aguentava mais acompanhar a minha mãe em lojas de Nova York e decidi sair para encontrar alguma farmácia por perto e comprar um balm para os meus lábios rachados de frio, mas ao invés disso passei a caminhar pela rua da ABC e acabei encontrando o Central Park. Foi incrível ficar sozinha por alguns minutos em um lugar tão fantástico!

Eu decidi que quero ir morar no Rio e atuar. Já falei até com aquela minha avó distante que mora lá, e ela me aceita na casa dela. Mas pra isso - pra tranquilizar meus pais - preciso de um motivo mais... plausível. Então escolhi um dos únicos cursos que não tem na Universidade Federal da minha cidade (eu já te contei onde eu moro?), mas tem na UFRJ: História da Arte, Ou HIAR, como prefiro escrever. É um curso até que bem interessante, né? Em Nova York eu queria ver todos os museus e passar o dia neles, minha mãe que não deixou, então acho que me identifico. Por isso que tenho que estudar para o vestibular, eu preciso passar na federal e ir para o Rio!

Ou ao menos espero que, quando sair finalmente a porcaria do divorcio dos meus pais, minha mãe queira se mudar para o Rio comigo, aí não preciso depender da minha avó. Ah, o Rio não é incrível? É serio, é inacreditável a quantidade de vezes que falo isso e conto como quero ir morar na cidade maravilhosa, até mesmo para estranhos. 

Aliás, a Copa se aproxima, não é? Que venha britânicos bonitos, que venha britânicos bonitos! Eu conheci um no JFK, mas por causa da minha mãe, uma policial americana irritada e um frasco de shampoo Herbal Essences de mais de 100ml no detector de metal do aeroporto, nunca mais o vi. Ai, ai, a vida é dura!

Mas, se a gente tratar direitinho, será que ganha prêmio?

Little Rock



BIOGRAPHY

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Brasil, 1996. Sou a garota das anotações ao lado. Meu codenome é Little Rock, apenas para proteger a minha imagem, mas tudo o que eu escrevi é verdade, se é que a minha vida é real.


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Meu diário secreto.



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