19:27. segunda-feira, 15 de agosto de 2011
NOTHING IS FOREVER

Querido diário,

você não sabe o valor do tempo, quando então em um segundo sua vida muda completamente para sempre. Você não sabe a dor de uma perda, quando então você perde alguem. Você não sabe as complicações de um velório, quando então você tem que fazer um. Hoje eu sai do colégio as 16:30, era dia de horário integral. Eu ri, brinquei, fiquei feliz, fiquei chateada, fiquei esperançosa, fiquei entediada, fiquei com fome e fui almoçar na Burguer King com umas amigas. Eu voltei a tempo da aula de física e tudo estava bem até ai.
Liguei para minha mãe. Ela estava com uma voz diferente. Liguei para o meu pai. Ele estava estressado.
Meu pai veio me buscar. Tobby estava dentro do carro também, e eu ri. Até ai, tudo bem. Meu pai, dessa mesma maneira, como um tapa ou um choque, me falou: "Sua avó partiu".
TUDO DESMONRONA.
Choro, choro, choro. E todo mundo aparece para te ver e te abraçar, e todo mundo quer te falar algo reconfortante, mas tudo o que eu quero é ficar sozinha, por favor!
Querido diário, tudo poderia ficar bem e sem magoas de novo? Minha mãe está aqui há uma hora chorando e ouvindo músicas que falam sobre mãe, e isso tá quase me matando! Até agora ela estava bem e forte, mas eu sabia que isso ia chegar. Eu não queria ver minha mãezinha assim, não mesmo. Mesmo eu chorando tanto, ela sofre mais que eu; era a mãe dela.
Avó é mãe duas vezes. A minha lembrança mais antiga deve ser quando eu tinha 4 ou 5 anos e eu só me lembro de ir caminhando até ela, sentada na cadeira da cozinha da casa antiga da minha tia. Me lembro que a minha prima recém-nascida estava dormindo no quarto e meus tios não estavam em casa, vovó ficou para cuidar de nós duas. E lá estava ela, comendo salada, eu falei "eca, vó! É mato!", e ela só me disse o quanto aquilo era bom para a saude e, se eu não quisesse mais ficar doente, eu devia começar a gostar. Gosto de verduras até hoje.
Cancêr é uma droga. Chega assim do nada, te correi e te mata. É estranho saber que a minha avó morreu. É estranho saber que ela não vai mais ligar, nem ficar preocupada quando souber que eu fiquei sozinha em casa - nem sabia ela que fico só em casa todos os dias, e amo. É estranho não passar mais na casa dela depois da escola e ir almoçar, porque com certeza ela fez um almoço delicioso. É estranho não viajar com ela para Natal visitar minha tia, ou Caruaru visitar o resto da família. E quando meus pais viajarem, é estranho saber que não tenho mais ninguem com quem ficar. E quando eu olhar para a minha prima amanhã, vou me lembrar de quando eu e ela imitavamos a minha avó com dor nas costas, ou implicavamos com ela porque ela não podia comer os doces que estavamos comendo. Vou me lembrar de quando eu, ela, minha avó e meu "avôdastro" sujamos a cama toda de pão e ficamos cantando.
Você não dá importancia as coisas até que as perde.
Vou viver a minha vida, sabendo que ela está com Deus. Vou fazer o que a minha mãe disse e me lembrar apenas das coisas boas. Vou ficar triste em certos momentos, vou me esquecer de tudo isso em outros. Então, outros também vão morrer, e eu vou morrar, porque nada é para sempre. Mas, de qualquer forma, vamos ficar bem.

Little Rock

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Brasil, 1996. Sou a garota das anotações ao lado. Meu codenome é Little Rock, apenas para proteger a minha imagem, mas tudo o que eu escrevi é verdade, se é que a minha vida é real.


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Meu diário secreto.



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